O tempo em que pensa na doença
Beatriz Gordo, 46 anos / Maria Santo, 82 anos

Beatriz tem 46 anos e, segundo a mãe, “já nasceu sem saúde”. A mãe é a cuidadora de Beatriz. É quem acompanha a filha em todas as horas, é o pilar de uma vida marcada pela dor de quem nasceu raro. Uma vida gerida à volta do preconceito de quem nunca viu ninguém assim, como Beatriz. É-lhe difícil esconder as marcas de uma doença que lhe tira o ar e que a torna cansada. O vermelho dos lábios e a cor rosada da face dão lugar ao azul ciano que faz lembrar o mar. A voz não acompanha a alma de Beatriz, porque as palavras - até as palavras - a cansam.
Nem sempre Beatriz se deixou intimidar pelos sinais da doença. Trabalhou, durante muitos anos, numa escola, O trabalho fazia-a sentir viva, o contacto com os jovens fazia-a esquecer-se de uma doença que tomava conta do seu corpo. Beatriz nada tinha feito para a ter e, por isso mesmo, agia como se nada fosse. Tentava levar uma vida normal, sem pensar na doença, porque não concebia que fosse de outra maneira.
A liberdade de Beatriz foi ameaçada quando a vida a obrigou a deixar de fazer o que a fazia viver. A vida achou que Beatriz precisava de descansar e Beatriz obedeceu. Foi para junto da mãe, para o corpo descansar. Para poder passar a concentrar-se numa doença que, até ali, era como se não existisse. Ali, em casa, era impossível esquecer a doença. Tudo a fazia lembrar. As vozes inconformadas e revoltadas, os espelhos, os suspiros e as lágrimas da mãe. Aquela devia ser a sua fortaleza. Afinal, família é isso mesmo. Ali, dentro dessa fortaleza, Beatriz sente-se perdida e obrigada a lembrar-se da sua maior ameaça. Vive refém da doença, das leis a que ela obriga. Deixou de ser a Beatriz, passou a ser doente a tempo inteiro e vive presa a uma realidade que lhe é imposta. E, por muito que ela teime – e como é teimosa, a Beatriz – é impossível não pensar nela.
A história da Beatriz é igual a muitas outras que estão e por contar. Histórias aprisionadas pelo desconhecimento, preconceito e falta de literacia. Bem lá no fundo deste turbilhão de mal entendidos estão doentes como a Beatriz. Cabe-nos a nós, cuidadores, amigos ou mesmo desconhecidos, libertá-los. Nem que seja por um dia.
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